Resumo
Este artigo considera
a partir de vários textos da Bíblia e da perspectiva reformada a questão da
ligação que há entre predestinação e soberania divina. Pondera sobre a
importância de se ter uma compreensão correta sobre um assunto tão e de
complicada compreensão a maioria dos cristãos brasileiros. Examina a
importância desse assunto para a compreensão mais clara de Deus. Demonstra que
a crença na predestinação é de suma importância para a visão correta da
soberania divina.
Palavras-chave
Predestinação, Presciência, Liberdade,
Soberania, Condicionalidade.
1.
Soberania e
Predestinação
É importante que se tenha um conhecimento claro do que significa a
palavra predestinação. O dicionário Webster coloca os seguintes verbetes:
Predestinado – destinado, fadado ou
determinado de antemão; preordenado, por divino decreto, para uma sorte ou
destino, terrestre ou eterno.
Predestinação – a doutrina que Deus, em
consequência de sua presciência de todos os acontecimentos, infalivelmente guia
aqueles que são destinados à salvação.
Predestinar – destinar, decretar, apontar ou
estabelecer de antemão.
Como coloca Sproul (1998) a predestinação trata de forma mais
elementar qual seria o nosso destino final, céu ou inferno, sendo decidido por
Deus. Mas, isso acontecendo antes mesmo de termos nascido. A questão de Deus
escolher uns para salvação e outros para perdição eterna é um tema difícil não
importando a maneira como é abordado.
A soberania de Deus vai além da escolha dos salvos, ela abrange todo o
funcionamento do cosmo. Pois, não acreditar na soberania de Deus sobre todas as
coisas que existem significa não acreditar em Deus. Essa doutrina tem sido
vista como pertencente apenas ao Calvinismo. Mas, ela deve fazer parte da
crença teísta de maneira indispensável. Pois, no mínimo para alguma coisa acontecer
é necessário que Ele permita, então em certo sentido Ele está preordenando. Se
houver alguma coisa que aconteça fora da vontade de Deus, logo ela é mais forte
do que Deus, assim Ele deixaria de ser soberano. Deus não ter soberania
significa que Ele não é Deus.
Deus por ser autor do universo possui autoridade sobre a sua criação.
Por ser proprietário ele tem certos direitos sobre sua criação. Dessa forma, é
natural que faça o que é agradável a sua vontade.
Feinberg (1986) explica que a vontade de Deus cobre todas as coisas,
dessa forma não somente prevê o que acontecerá, mas toma decisões soberanas. Os
seus bons propósitos e aquilo que lhe apraz, determinam os acontecimentos que
Ele decreta. É possível acreditar que Deus escolheu de uma vez todos os eventos
em sequência acontecendo de maneira interligada, ou seja, tudo que aconteceu ou
acontecerá no mundo. É interessante explicar que isso não significa que as
decisões eram absolutamente necessárias, como crê os fatalistas, mas apenas
necessárias tendo em vistas as outras decisões tomadas por Deus.
A crença na soberania divina pode ser vista como essencial a crença
teísta, pois Deus sem soberania não é Deus. A escolha dos destinos dos seres
humanos, para o céu ou inferno, pode ser vista como automática. Ou seja, o
agente de predestinação é Deus. Como afirma o apostolo Paulo em Efésios 1.3-12:
Como me foi este mistério manifestado pela revelação, como antes um
pouco vos escrevi; por isso, quando ledes, podeis perceber a minha compreensão
do mistério de Cristo, o qual noutros séculos não foi manifestado aos filhos
dos homens, como agora tem sido revelado pelo Espírito aos seus santos
apóstolos e profetas; [A saber,] que os gentios são co-herdeiros, e de um mesmo
corpo, e participantes da promessa em Cristo pelo evangelho; do qual fui feito
ministro, pelo dom da graça de Deus, que me foi dado segundo a operação do seu
poder.
A mim, o mínimo de todos os
santos, me foi dada esta graça de anunciar entre os gentios, por meio do
evangelho, as riquezas incompreensíveis de Cristo, e demonstrar a todos qual
seja a comunhão do mistério, que desde os séculos esteve oculto em Deus, que
tudo criou por meio de Jesus Cristo; para que agora, pela igreja, a multiforme
sabedoria de Deus seja conhecida dos principados e potestades nos céus, segundo
o eterno propósito que fez em Cristo Jesus nosso Senhor, no qual temos ousadia
e acesso com confiança, pela nossa fé nele.
2.
É condicional ou
incondicional?
Um exemplo máximo de eleição incondicional é colocado por Paulo em
Romanos 9:10-16:
E não somente esta, mas também Rebeca, quando concebeu de um, de Isaque,
nosso pai; Porque, não tendo eles ainda nascido, nem tendo feito
bem ou mal (para que o propósito de Deus, segundo a eleição, ficasse firme, não
por causa das obras, mas por aquele que chama), foi-lhe dito a ela: O maior servirá ao menor. Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú.
Que diremos pois? Que há injustiça da parte de
Deus? De maneira nenhuma. Pois diz a
Moisés: Compadecer-me-ei de quem me compadecer, e terei misericórdia de quem eu
tiver misericórdia. Assim, pois, isto não
depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus, que se compadece.
O significado dominante daquelas palavras é que a misericórdia e a
compaixão de Deus não se sujeitam a causa estranha à Sua livre graça (BRUCE,
1967, p. 156). Essa citação do apostolo foi retirada de Êxodo 33.19, quando
Moisés pediu para ver a glória de Deus, logo após, a intercessão feita pelos
filhos de Israel que haviam adorado um bezerro de ouro.
Sproul (2011) escreve sobre a maneira com que alguns tentam argumentar
e contornar a doutrina desse texto. Eles desenvolvem a ideia de que o texto
estaria se referindo não a eleição de indivíduos, mas às bênçãos terrenas.
Então em sua perspectiva as bênçãos faladas no texto estariam se referindo a
nação de Israel e outras nações da antiguidade como: Egípcia, Romana, Grega,
Gaulesa, entre outras. E há aqueles que simplesmente se esquivam do texto
buscando levar o terreno de disputa para outros textos da Bíblia.
Quando é falado no texto de Esaú e Jacó observamos que o apóstolo está
tratando de indivíduos e não de nações. A ideia de que os Árabes descendentes
de Ismael e Judeus descendentes de Jacó seriam os representantes dos
personagens deve ser retirada. Pois, claramente o texto está se referindo aos
indivíduos e não as nações que geraram.
Geoffrey Wilson está correto quando diz que não existia diferença
entre Esaú e Jacó os dois tinham a mesma mãe. E também eram iguais em obras. No
entanto Malaquias 1.2-3 nos diz: Eu vos tenho amado, diz o Senhor; mas vós
dizeis: Em que nos tem amado? Não foi Esaú irmão de Jacó. E odiei a Esaú; e fiz
dos seus montes uma desolação, e dei a sua herança aos chacais do deserto.
“Como poderia o indivíduo temporal, visível, psicológico, estar
habilitado à eleição ou à rejeição? ” (BARTH, 1967, P. 539) Stott (1994)
argumenta que os dois irmãos eram membros da família da aliança de Deus, mas as
duas histórias ilustram o propósito de Deus na eleição. Dessa forma, não houve
falha na promessa de Deus, pois essa foi cumprida no Israel espiritual dentro
de Israel físico.
Como coloca F. F. Bruce (,p. 153):
Abraão foi pai de um bom número de filhos, mas somente por meio de um
deles, Isaque, o filho da promessa, é que a linha da promessa de Deus devia ser
traçada. Isaque, o filho da promessa, é que a linha da promessa de Deus devia
ser traçada. Isaque, por sua vez, teve dois filhos, mas somente por um deles,
Jacó, é que a semente santa foi transmitida. E a escolha que Deus fez de Jacó e
a omissão do seu irmão Esaú não dependeram nem um pouco da conduta ou do
caráter dos irmãos gêmeos: Deus o declara previamente – antes do nascimento
deles.
O que o apóstolo quer
mostrar é que a eleição de Israel não é meramente nacional, como escreveu John
Murray (2003 , 419 pg.):
Nem todos os que são da nação eleita de Israel são eleitos. Há uma
distinção entre Israel e o verdadeiro Israel, entre os filhos e os filhos
verdadeiro, entre os descendentes e os verdadeiros descendentes. Precisamos
distinguir entre os eleitos de Israel e a nação eleita de Israel.
(SPROUL, 1997, P. 127) explica
que:
Deus escolher de acordo com o bom prazer de sua vontade não significa
que suas escolhas são por capricho ou arbitrárias. Uma escolha arbitrária é
aquela por nenhuma razão. Embora a teologia insista que a eleição de Deus não é
baseada em nada previsto nas vidas dos indivíduos, isso não significa que suas
escolhas são por capricho ou arbitrárias. Uma escolha arbitrária é aquela por
nenhuma razão. Embora a teologia reformada insista que a eleição de Deus não é
baseada em nada previsto na vida dos indivíduos, isso não significa que ele
faça a escolha por nenhuma razão mesmo. Simplesmente significa que a razão não
é algo que Deus encontra em nós. Em sua vontade inescrutável, misteriosa, Deus
escolhe por razões que só ele conhece. Ele escolhe conforme seu próprio prazer,
que é direito divino dele. Seu prazer é descrito como seu bom prazer. Se algo
agrada a Deus deve ser bom, não há mau prazer em Deus.
Sproul (1997) afirma que Deus não deve graça a ninguém pois se Ele
devesse, logo, graça não seria graça e sim justiça. A misericórdia que Deus
dispensa é feita de acordo com Sua vontade. “Correr” mostra que não se baseia
na presciência das atividades ou escolhas humanas, mas inteiramente na Sua vontade.
Dessa forma, não faz sentido exigir que Deus tenha misericórdia ou considera-lo
de alguma forma menos bondoso ou justo por escolher alguns.
3.
Predestinação e
Presciência
As vidas levadas pelos homens não possuem qualquer peso sobre a
decisão de Deus. Mas alguns argumentam
que apesar de Deus fazer sua escolha, quanto aos que serão salvos, antes que
tenham nascido Ele já sabe tudo sobre como todos os seres humanos irão viver.
Para alguns Deus leva em conta o que sabe de antemão sobre as atitudes que
serão tomadas por cada um. O que significaria, nessa visão, que Deus observa o
futuro e baseado nisso escolhe aqueles que por suas atitudes o escolherão. Um
dos textos que atestariam essa ideia encontra-se em Romanos 8.29-30:
Porque os que dantes conheceu também os
predestinou [para serem] conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja
o primogênito entre muitos irmãos. E aos que predestinou a estes também chamou;
e aos que chamou a estes também justificou; e aos que justificou a estes também
glorificou.
Stott (1994) discorre que muitos comentaristas ao longo da história
têm incorrido no pensamento de crer que a previsão de Deus do futuro seria a
base da eleição, presciência. Mas, duas razões podem ser apresentadas para se
crer que eles estariam errados. A primeira é que Paulo está se referindo a um
grupo especifico e não todas as pessoas, no caso os salvos. E a segunda, se a
predestinação depende da crença, escolha, das pessoas então elas têm o mérito
de sua própria salvação e não Cristo, o que destruiria a predestinação.
Sproul (1997) explica que desde a eternidade Deus conhecia todos os
seus eleitos. E de antemão Deus também já os amava. E, por essa razão ele faz
acontecer a salvação em todos os que escolheu. Aos outros, não eleitos, ele não
gera pecado como creem os acreditam na dupla predestinação, pois faria com que
Deus fosse responsável pelas suas maldades. Ele apenas não gera neles a fé para
que se convertam, eles podem até receber o chamado externo ao ouvirem, mas não
receberão o chamado interno divino. A salvação de todo homem depende
inteiramente de Deus e sua ruína depende inteiramente dele mesmo.
No arminianismo a escolha final acaba sendo do homem que pode escolher
a salvação e a santificação. De modo que não é a graça soberana de Deus que faz
a escolha, mas o próprio homem. A visão presciente na eleição semipelagiana e
arminiana acabam negando a predestinação de forma completa. Talvez como
argumenta Owen (1986) eles desejam que Deus pareça mais atraente ao dizer que
qualquer um o pode escolher. Tornando o amor de “maior”, ao ensinar que Ele ama a todos igualmente. Deixando parecer
que a morte de Cristo tem maior “valor”, se podem dizer que foi pelo pagamento
dos pecados de todos os homens.
Conclusão
Um grande número de dominações no Brasil, e por consequência a maioria
de seus membros, tem uma compreensão errada sobre a doutrina da predestinação.
Muitos sem saber a negam por compreenderem de outra maneira a presciência
divina. Isso acontece devido a dificuldade com o ser humano tem de encarar Deus
como soberano sobre todas as coisas. A influência pelagiana continua na igreja
após séculos e apesar de não tão nociva como o liberalismo pode trazer
desesperança e incertezas quanto ao futuro no coração de muitos fiéis.
A doutrina predestinação reformada mostra que Deus em sua soberania
escolheu os homens baseado não em suas atitudes ou decisões futuras. Mas, os
predestinou baseado em sua santa vontade. Mesmo sabendo em sua presciência de
todos os erros e pecados que cometeriam os chamou. E Deus não pode ser
responsabilizado pelas almas que se perderão, afinal de contas “a luz veio ao
mundo e homens amaram mais trevas do que a luz por quê suas obras eram más”.
Assim “continue o ímpio cometendo impiedade e continue o santo se santificando”.
Bibliografia
SPROUL, R. C. O que é teologia
reformada. São Paulo: Cultura Cristã. 1997.
SPROUL, R.C. Eleitos de Deus.
São Paulo: Cultura Cristã. 1998.
FEINBERG, John. GEISLER, Norman. REICHENBACH, Bruce. PINNOCK, Clark. Predestinação e Livre-arbítrio. São
Paulo: Editora Mundo Cristão, 1986.
STOTT, John. Romanos. São
Paulo: ABU Editora. 1994.
OWEN, John. Por quem Cristo
morreu. São Paulo: PES, 1986..
BARTH, Karl. Carta aos Romanos. São Paulo: Novo Século, 1967.